Os desajustados

terça-feira, 12 de outubro de 2010 14:55 Postado por Anti-herói
A primeira parada da viagem inaugural a bordo de nossa Van cinéfila, tem como posto o filme Os desajustados-(The Misfits)- EUA, 1961, drama dirigido por John Huston, com roteiro de Arthur Miller, cujo elenco conta com grandes estrelas de Hollywood como, Clark Gable, Marilyn Monroe e Montgomery Clift e Eli Wallach, os dois primeiros em final de carreira, o que por si só já valeria a pena o bilhete da Van.

Em precipitada impressão, o filme nos leva a pensar que seguirá uma fórmula vulgar, há muito conhecida de Hollywood sobre melancólica do interior do Oeste americano, no filme, a cidade de Reno em Nevada. De certa forma, a frase de Gay (Gable) já nas primeiras cenas, nos conduz um pouco a este equívoco raciocínio. "aqui a gente vive" "No começo a gente dorme. Acorda quando tem vontade. Frita alguns ovos. Dá uma olhada no tempo. Atira pedras numa barril e assobia".

O roteiro, todavia, nada tem de previsível ou rasteiro. Se em Reno as coisas nunca acontecem, no filme elas acontecem aos nossos olhos a cada minuto, revelando a angústia, a necessidade de afeto e os dramas pessoais de cada um dos quatro protagonistas que compõem a trama, os quais muito se assemelham aos mustangs caçados em certa cena, cavalos vira-latas cuja única utilidade é a carne para ração de cachorros, mas que todavia, lutam por cada sopro de suas patéticas vidas.

Marilyn vive Roslyn, uma ex-bailarina histriônica, que culpa os homens e o mundo por sua falta de afeto e que viaja à costa oeste em busca de sua separação. Sem lá muito compreender o cinismo das engrenagens da realidade e da vida, acaba por assumir o papel da ingênua moçoila vitimizada pelo egoísmo e desamor do mundo, quando tudo o que queria era distribuir aleatoriamente seu sex appeal e atrair os homens como vagalumes para lâmpada, o que diga-se de passagem, o própria Marilyn sempre fez muito bem, muito embora certas cenas revelem alguns quilinhos a mais da atriz, o que de maneira nenhuma reduz o glamour da musa de Hollywood em seu último filme.

Não à-toa o papel lhe cai como uma luva, afinal, foi escrito especialmente para ela pelo ex-marido dramaturgo Arthur Miller, quando ainda casado com a loira que vestia de dia "pele e pérolas" e a noite uma apenas uma gota de chanel nº 5

Como não poderia deixar de ser, a trama gravita em torno dela. A cena em que Roslyn brinca freneticamente com a raquete para uma platéia de marmanjos com olhares lascivos em um bar, simulando desmaliciosamente o ato sexual, ou a cena que de maneira afetada lança-se na tentativa de impedir Perce de disputar o rodeio, apenas revelam os estratagemas pouco sutis que a personagem se utiliza desesperadamente para receber atenção e mendigar afeto, titereando os homens a sua volta. Em um outro contexto, flerta com Guido quando displicentemente deixa a mostra as fotos sensuais coladas na porta do guarda-roupas. Seriam da própria Marilyn?????

Outro desajustado é Gay,(Gable) em sua despedida tanto das telas quanto da vida, haja vista que o ator morreu de enfarte poucos dias após as filmagens. Gay é um típico Cawboy sessentão, gentil e desprendido, que a todo o momento ostenta sua vida livre e sem salário e sem compromisso, mas que, em um rasgo de loucura,não teme trocar seu modo de vida por algo que lhe dê novamente uma fração de esperança e virilidade, mesmo que isto a todo tempo lhe escape como areia nas mãos.

Escondido por trás do sorriso cafajeste do cawboy- aliás do próprio Gable- cujo brilho blasê parece nos dizer " está tudo bem", está, talvez, a pedra de toque de toda a película, pois, ironicamente, nada está bem. Não há qualquer controle sobre a vida e sobre os acontecimentos, mas apenas o remorso angustiante por não ter sido feito nada ao tempo em que poderia ter sido feito.

Chega a ser perversamente maravilhoso ver o personagem decadente correr atrás do que "o vento levou", vê-lo cercar-se de cuidados para com Roslyn, fazer tábua rasa de seus flertes ; chorar pelos filhos imaginários depois algumas doses de whisky; ou o esforço sobre-humano que faz para derrubar o garanhão com as próprias mãos.

Os últimos desajustados são Guido (Eli Wallach), um mecânico bonachão e estúpido que perdeu a esposa por não ter um pneu estepe e Perce (Montgomery) o cawboy obcecado pela mãe que invade a trama já pelo meio, para perturbar o sossego dos demais desajustados com sua juventude e virilidade, dividindo a atenção de Roslyn

Em alguns momentos, como quando chegam bêbados na choupana de Guido, os quatro mais parecem saídos das quatro paredes do inferno existencialista de Sartre."O inferno são os outros". Em outros, mais se assemelham aos deprimidos-suicidas no barco a deriva de Mário Peixoto, como na inesquecível sequência do deserto.

Em última análise, os desajustados são andarilhos que caminham sem qualquer rumo e que se agarram a qualquer pedra brilhante que encontram pela estrada, mesmo que no final isto não altere lá grande coisa as suas angústias, afinal, como diz o lema de Nevada lembrado pela personagem Isabell "qualquer coisa é válida, só não se queixe se não der resultado "



1 Response to "Os desajustados"

  1. Ana Says:

    Hum, verei!


    Bons comentários e interlocuções cinematográfico-filosóficas!


    Marilyn é massa!

    Beijocolinhas, fofura!

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